A Malvasia de Colares é uma casta branca autóctone da região de Colares, em Sintra, entre a serra e o Oceano Atlântico. Apesar do nome, não é apenas mais uma Malvasia: é uma variedade própria desta faixa de costa, e a casta principal dos vinhos brancos com Denominação de Origem Colares. Dá vinhos de acidez alta, álcool moderado e um toque salino que lembra o mar ali ao lado.
Na segunda metade do século XIX, a filoxera, um pequeno inseto que ataca as raízes da videira, destruiu a maior parte das vinhas da Europa. A solução foi replantar sobre porta-enxertos americanos, resistentes à praga. Em Colares, isso não foi preciso: as vinhas plantadas nas dunas sobreviveram, porque a filoxera não consegue deslocar-se na areia solta.
Uma casta que sobreviveu à filoxera
É por isso que muitas vinhas de Colares ainda crescem em pé franco, sobre as suas próprias raízes, como as vinhas europeias antes da praga. São das poucas na Europa.
Plantar no chão de areia é um trabalho árduo. Os viticultores escavam entre um e quatro metros de areia até chegar à camada de argila e calcário onde a raiz se fixa. A videira cresce rente ao chão, protegida do vento do Atlântico por paliçadas de canas. Além da areia, a região tem o chão rijo, de solos argilo-calcários, mais para o interior.
Colares é região demarcada desde 1908, uma das mais antigas do país, e tem duas castas emblemáticas: a Malvasia de Colares nos brancos e o Ramisco nos tintos. No seu auge teve mais de mil hectares de vinha. Hoje restam cerca de 20, apertados entre a serra, o mar e as casas.
A própria casta é desta terra. Os produtores da região descrevem-na como um cruzamento nascido em Colares, e estudos genéticos apontam como progenitores as castas Hebén e Amaral.
Como é um vinho de Malvasia de Colares
A Malvasia de Colares dá vinhos de acidez alta e álcool moderado, mas com mais corpo do que o grau faria esperar. No nariz aparecem citrinos e fruta verde; na boca, uma nota salina, quase de maresia, e uma textura ligeiramente cerosa.
O clima explica muito. As vinhas estão a poucos quilómetros do Atlântico, com nevoeiros frequentes e verões frescos, e a uva amadurece devagar, sem perder frescura.
Com tempo em garrafa, os vinhos ganham complexidade e por vezes desenvolvem um leve toque de petróleo, típico dos grandes brancos de acidez alta. A acidez é o que lhes dá essa capacidade de guarda.
A Malvasia de Colares na Quinta de San Michel
Na Quinta de San Michel, em Janas, a Malvasia de Colares é a casta central do projeto desde a primeira plantação, em 2013. Hoje cresce em dois terroirs diferentes.
Nos solos argilo-calcários, nas vinhas Quinta de San Michel e Zé Moço, entre 170 e 180 metros de altitude. É daqui que vêm os vinhos que já pode provar:
- Malvasia: 100% Malvasia de Colares, com 12 meses em barricas de carvalho francês, americano e húngaro sobre as borras e 15 meses em garrafa.
- Espumante: 100% Malvasia de Colares, com 24 meses sobre as borras. A acidez natural da casta é ideal para espumante.
- Malvarinto de Janas: o lote de Malvasia de Colares e Arinto, lançado pela primeira vez em 2017 e uma das imagens de marca da quinta.
- Curtimenta: Malvasia de Colares e Arinto, fermentados 30 dias com as películas.
No chão de areia, nas novas vinhas Mar da Aguda e Borneirinhos, plantadas em 2023. A Malvasia de Colares regressa aqui ao terreno tradicional da região; na vinha Mar da Aguda, é conduzida em vaso. Deram a primeira vindima em 2026, e o primeiro vinho de Malvasia de Colares de areia da quinta está a caminho.

Com que pratos servir
A frescura e a salinidade fazem da Malvasia de Colares um vinho de mesa por excelência, sobretudo com a cozinha do mar.
- Malvasia: pratos da costa, do choco grelhado ao arroz de lingueirão, e saladas frescas no verão.
- Espumante: ostras, lapas e marisco, e também cozinha asiática fresca.
- Curtimenta: com mais estrutura, aguenta carnes como o leitão de Negrais ou o borrego assado.
Sirva os brancos frescos, mas não gelados: demasiado frio esconde a complexidade da casta.
Perguntas frequentes
A Malvasia de Colares é a mesma casta que as outras Malvasias?
Não. Há muitas castas com o nome Malvasia em Portugal e no Mediterrâneo. A Malvasia de Colares é uma variedade própria, com origem na região de Colares, em Sintra.
Porque é que as vinhas de Colares sobreviveram à filoxera?
Porque muitas estão plantadas em areia. O inseto que destruiu as vinhas europeias no século XIX não consegue deslocar-se na areia solta para chegar às raízes.
O que quer dizer “pé franco”?
Quer dizer que a videira cresce sobre as suas próprias raízes, sem porta-enxerto americano. Desde a filoxera, isto é raro na Europa, mas ainda acontece nas vinhas de areia de Colares.
Como é o vinho de Malvasia de Colares?
Fresco, com acidez alta, álcool moderado, aromas de citrinos e uma nota salina que lembra o mar.
Onde posso provar Malvasia de Colares perto de Lisboa?
Na Quinta de San Michel, em Janas, a 40 minutos de Lisboa. As provas de vinho incluem visita às vinhas e à adega, mediante reserva.
Quinta de San Michel · Janas, Sintra · Região de Colares
Fontes
- Visit Sintra – Colares Wine: região demarcada em 1908, chão de areia e chão rijo, paliçadas de canas, filoxera
- GuildSomm – Colares: Wines by the Waves: carácter da casta, progenitores, escavação de 1 a 4 metros de areia
- Wine Anorak – Viúva Gomes: Malvasia de Colares como cruzamento local, área de vinha (mais de mil hectares no auge, cerca de 20 hoje)
- Wikipedia – Colares DOC: vinhas em pé franco na areia
- Site da Quinta de San Michel: fichas técnicas dos vinhos, páginas das vinhas e harmonizações


